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e-Stória

Comecei minha carreira em criação aos 15 anos. Tive uma chance importante na então, bastante jovem, Seven Propaganda, com sede em Pomerode/SC (Hoje a agência não pertence aos seus fundadores, mas é uma agência renomada e premiada com sede em Blumenau).

Meu portfólio foi uma pasta preta, alguns plásticos e ilustrações em lápis e nanquim. Foi na Seven que eu tive o primeiro contato com um computador, naquela época não era comum alguém ter computador em casa. Na minha rua, apenas um vizinho havia comprado, junto com uma impressora matricial que de tão barulhenta, nos obrigava a aumentar o volume da tv quando começavam a imprimir um banner naquele programa ‘Legal’ (se você lembra disso você também tá ficando velho).

Fiquei poucos meses na Seven, mas não fui pra rua demitido sozinho, o que me confortou um pouco. Decidi não ouvir o conselho de um dos sócios que me disse:

‘Você não nasceu para fazer propaganda…

Peguei as Listas Amarelas e procurei todas as agências de propaganda mais próximas (a Seven era a únida agência de Pomerode), restava Blumenau. Lá fui eu, com meus 16 anos, 20 currículos embaixo do braço. Em uma semana fui chamado na T.AG Ações de Marketing. Lá conheci um super diretor de arte, Cristiano Pitt (hoje proprietário da Mythos Comunicação) que sempre foi uma inspiração para mim.

Há alguns anos pude falar isso diretamente para ele e para minha surpresa ele respondeu: “Se você admirava meu trabalho, hoje os papéis se inverteram, pois sou eu que admiro o seu”… (certamente um dos melhores elogios que já recebi). Mas para trabalhar na T.AG tive que estudar em Blumenau também, fazia o segundo grau na época. Saia de casa as seis da manhã e voltava perto da meia noite. Minha experiência profissional era praticamente zero e meu conhecimento técnico era ainda mais precário. Meu salário era tão baixo que eu não podia pagar nem o almoço. Era tomar café da manhã e jantar quanto voltava para casa. Há um dia do exame admissional, chega na T.AG um universitário da Furb que trouxe seu ‘portfólio acadêmico’. O legal de um portfólio acadêmico é que você escolhe a campanha e o cliente que quiser. Foi o suficiente para eu me fú ser dispensado.

Agora,  estudando em Blumenau não tinha renda para pagar a passagem do ônibus. Então um amigo do colégio consegue uma reunião para mim, uma agência no prédio onde ele trabalhava de office boy. Era a recém aberta MK3 Propaganda. Minha situação na agência era complicada pois entre 3 sócios estava eu, o mais novo, o único funcionário. Lá encontrei o Gika, um dos melhores diretores de criação que conheci até hoje e um dos caras mais divertidos do mundo para trabalhar. O Gika era mais que um colega de trabalho, era um grande amigo, um ‘paizão’  e o cara que conseguia aliviar a tensão com suas brincadeiras. Com ele aprendi quase tudo que sei sobre criação.

Tudo corria bem até surgir uma oportunidade na criação da Dublack Malhas. Trabalhar em um departamento tão importante era algo que causava muito orgulho para meu pai, principalemente pela oportunidade não ser gerada pela amizade que ele mantinha com o diretor da empresa. Pedi demissão da MK3 e ingressei na Dublack.

Dois meses de empresa perdi meu pai aos 48 anos. Eu com apenas 17 estava completamente perdido. Trabalhando em uma empresa que não fazia parte dos meus planos profissionais (se você não sabe, parentes que perdem um ente querido de primeiro grau, tem apenas 5 dias de licença, por lei). Foi pouco para me recuperar,  mas o suficiente para tomar coragem e pedir demissão e voltar para a agência que eu havia deixado para trás.

Apesar de voltar para a MK3 e trabalhar no que eu gostava de fazer, perder meu pai era algo que eu não sabia lidar. Tudo era difícil demais. Sorrir era difícil demais. Minha família inteira não aceitava a perda e cada um lidou com a nova realidade da sua forma. Surge então novamente uma oportunidade para ficar mais perto da família no pior momento de nossas vidas. Já havia terminado o segundo grau e não tinha condições financeiras de cursar uma universidade. Trabalhar na cidade que eu morava era mais vantajoso, os custos eram bem menores.

Entrei na Impressora Mayer no departamento de pré-impressão. Tive uma oportunidade única, um curso vip de 4 dias com o ainda pouco conhecido Alexandre Keese (hoje Keese é considerado a maior autoridade em Photoshop na América Latina). O curso era focado no então recém lançado ‘Photoshop 6′. Como Keese era obrigado a ficar em Pomerode e não tinha muitas opções ele acabava passando a noite por lá, aproveitei para aprender mais profundamente todos os tópicos abordados no curso, já que ele se dispôs a ensinar.

Infelizmente a morte do meu pai ainda me incomodava profundamente. Procurei o Fernando Mayer, um dos sócios da empresa e pedi minha demissão. Carinhosamente ele me oferece um mês de descanso em casa, remunerado, com apenas 6 meses na empresa. Mas não achei correto aceitar, pois sabia que eu nunca mais voltaria.

Depois de um tempo em casa, tentando colocar as idéias no lugar, voltei a procurar a Mk3, pela quarta vez. Novamente as portas estavam abertas, afinal eu já tinha muita experiência e não era muito fácil encontrar profissionais com bom conhecimento técnico. Nesse aspecto a Mayer foi imporante para eu avançar em conhecimentos técnicos, finalização de arquivos e implementar o Photoshop definitivamente no desenvolvimento da agência.  A Mayer também foi a primeira empresa da América Latina a comprar uma impressora Speedmaster DI Heidelberg®, quatro cores e que trazia a grande revolução gráfica da gravação digital, eliminando o uso dos famigerados fotolitos. O mais interessante da Mayer eram os seus contrastes, mesmo sendo líder de mercado em tecnologia, eles ainda mantinham técnicas antigas como a  tipografia.

Na minha quarta temporada de Mk3 Propaganda, trabalhando há um ano e meio na agência, pedi demissão por ‘conflito de idéias’ com um dos sócios. Nesta época eu sentia que precisava ingressar no desenvolvimento de sites, era o ano de 2002 e como não tinha condições de pagar cursos na área, bolei um plano. Procurei a Cetelbras Informática para oferecer meus conhecimentos na área gráfica e fiquei sabendo que os professores podiam fazer cursos de graça em qualquer uma das sedes da empresa. Ingressei na Cetelbras de Pomerode mas por ser muito pequena, pedi transferência para a filial de Timbó, que já ministrava todos os cursos da rede.

Assumi muitas turmas, mais de 100 alunos, ministrava curso em mais de 20 programas diferentes. Apesar do grande desgaste, aguentei firme durante seis meses até ser estranhamente demitido, sem explicações. Agora com 20 anos, morando há um ano e meio sozinho, voltar para a ‘casa da mamãe’ não era um plano aceitável. Decidi visitar meu vizinho, um aluno da Cetelbras, 16 anos e extremamente talentoso. Achava esquisito ele me convidar sempre que me via na Cetelbras, para passar na casa dele, pegar umas músicas e uns filmes. Até que um dia quando ele recebia um grupo de amigos, me senti mais tranquilo para atravessar a rua. Nascia alí uma grande amizade. O Max mesmo sem me conhecer muito, me entregou uma caixa dos recém criados arquivos DivX. Como as únicas coisas que eu tinha no apartamento era um computador sem internet, um fogão, uma geladeira e um colchão. Enfim eu tinha algo para fazer durante as noites solitárias. Assisti sem risco de errar, mais de 200 vezes ‘Shrek 1′.

Colocar em prática finalmente os meus planos e minhas idéias sobre propaganda era um sonho, mas existia a dura realidade financeira. ‘The Moon Comunicação’ era o nome que coloquei nos meus trabalhos freelances, em homenagem a ‘Lua’ (apelido da Luciana, minha namorada). Fiz dois clientes importantes na cidade e em pouco tempo já estava atendendo clientes em outras cidades. O Max tinha muito conhecimento em programação e unido ao meu conhecimento em criação fizemos grandes projetos, como o site da Makeout, que virou referência em desenvolvimento web em todo país, quem sabe até hoje o único portal totalmente desenvolvido em Flash.

Quando a The Moon começava a alçar vôo, mais um baque violento, a perda da mãe da Luciana, uma das poucas pessoas que acreditava em mim e que nos ajudou em tudo que pode, principalmente nos dando condições de esperar a The Moon ter um faturamento que pudesse nos dar uma vida descente. No mesmo dia em que recebemos a notícia, nunca mais voltei ao apartamento e ao escritório da The Moon. Fechamos a agência e nos mudamos de Timbó para ajudar a família dela.

Infelizmente as coisas não correram bem, eu precisava voltar a trabalhar na área, procurei várias agências e a primeira a responder foram os antigos amigos da MK3 Popaganda. Mudamos para Blumenau, implantei o departamento de desenvolvimento web na agência, mas percebi que não conseguiria chegar muito longe alí sozinho. A experiência valeu por conhecer um outro grande amigo, ‘Gringo’, ótimo diretor de arte, argentino, radicado no Brasil (Hoje sócio da Órbita Publicitária).

Tomei coragem, porque juízo certamente eu não tinha. Sem nenhum capital abri novamente a The Moon. Agora na companhia do Max como sócio que me ensinou muito mais na área web. Fizemos cursos juntos e hoje ele é certamente um dos maiores desenvolvedores que eu conheço. Fomos ‘sócios’  por 4 anos até que ele terminou sua faculdade e decidiu seguir carreira em sua área de formação, afinal o nosso crescimento, sem ter dinheiro para investir e atender grandes clientes, dava-se em passos muito lentos.

A saída do Max dificultou a continuidade de desenvolvimento web, um dos maiores trunfos da The Moon, que permitia uma micro agência a concorrer com ‘cachorro grande’. Fizemos clientes fortes em web como Dimy®, Rosa Line® e bandas como Cidadão Quem, Rosa Tattooada, Garotos da Rua e Vera Loca. Até hoje é difícil encontrar um bom profissional na área de programação e ainda mais difícil encontrar alguém disposto a ser sócio, de uma agência que tem mais talento e insanidade, que capital e estrutura.

Foi difícil, continua sendo difícil, mas o sonho da The Moon continua vivo apesar de todas as idas e vindas, apesar das perdas, apesar de alguns torcerem contra, apesar de tentarem transformar dignidade em doença, inteligência em traição, estupidez em recompensa, esperança em maldição, continuo certo dos meus ideais e certo de que no fim, o bem prevalece. Continuo aqui, na busca de um sócio corajoso ou de uma oportunidade que me proporcione conhecer novos horizontes.

Ps.: Se você conhece alguém que não gosta do meu trabalho, da minha personalidade ou das minhas idéias, que tal você formar sua própria opinião, entre em contato, mande um email, passa no estúdio. Você vai conhecer um cara humilde que tenta sobreviver apesar dos seus ideais, sem prepotência, sem arrogância, sem intenções duvidosas.

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